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Negros e analfabetos: Dados de trabalho escravo alertam baianos

Estado aparece entre os três com mais novos empregadores incluídos no cadastro

Por: Lucas Vieira

01/05/202614:00Atualizado

A atualização da chamada “lista suja” do trabalho escravo reacendeu o debate sobre exploração laboral no Brasil e colocou a Bahia entre os estados com maior número de novos empregadores incluídos no cadastro federal. Neste Dia Mundial do Trabalhador, especialistas ouvidos pelo portal Esfera afirmam que os números refletem apenas parte da realidade, já que muitas denúncias não chegam a virar uma operação fiscal.

Lista suja do trabalho escravo expõe avanço de casos na Bahia e desafio para resgatar vítimas
Foto: Sérgio Carvalho/Inspeção do Trabalho

Segundo dados do Ministério do Trabalho, o estado ficou em terceiro lugar no país em número de novos empregadores incluídos na atualização da lista suja, com 17 registros, atrás apenas de Minas Gerais (35) e São Paulo (20). No recorte de trabalhadores resgatados, o estado também apresentou forte alta nos últimos anos: foram 87 pessoas resgatadas em 2023, 224 em 2024 e 482 em 2025.

O cadastro reúne nomes de empregadores flagrados após conclusão de processo administrativo com direito à defesa. A inclusão ocorre quando fica comprovada a submissão de pessoas a condições degradantes, jornada exaustiva, trabalho forçado ou restrição de locomoção.

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Bahia concentra casos no campo e no trabalho doméstico

A chefe de fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho na Bahia, Liane Durão, explica em entrevista à reportagem que o estado mantém ações permanentes desde 2017, com foco em denúncias e inteligência fiscal:

“Quando recebemos denúncia, fazemos planejamento, convidamos parceiros como Ministério Público do Trabalho, Defensoria Pública da União e forças policiais. Se constatada a situação, o auditor fiscal realiza o resgate."

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal


Segundo ela, os setores com mais ocorrências no estado seguem ligados ao trabalho rural, especialmente lavouras como café, sisal e eucalipto, além do trabalho doméstico e da construção civil.

A coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP), Hildete Nogueira, acrescenta que há municípios baianos que se repetem como origem de trabalhadores aliciados, entre eles cidades da Chapada Diamantina, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Barreiras e Ilhéus.

Quem são as vítimas

O perfil mais comum, segundo Hildete, varia conforme o tipo de exploração. No trabalho doméstico e exploração sexual, predominam meninas e mulheres negras, entre 15 e 25 anos. Já nas fazendas e obras, a maioria é de homens negros entre 15 e 35 anos, frequentemente com baixa escolaridade ou analfabetismo.

“Muitas pessoas aceitam propostas porque já viviam em extrema vulnerabilidade. Saem em busca de renda e acabam capturadas por promessas falsas”, indica.

Divulgação/NETP

Divulgação/NETP


O que acontece após o resgate

O resgate marca apenas o início de um processo complexo. Após a retirada imediata do local, os trabalhadores têm direito ao pagamento de verbas trabalhistas e a três parcelas de seguro-desemprego no valor de um salário mínimo cada. 

Quando o empregador não garante hospedagem, alimentação ou transporte, a rede pública entra em ação. “Articulamos assistência social, saúde e acolhimento. Muitas pessoas chegam debilitadas física e emocionalmente”, relata a coordenadora do NETP.

Ela explica que cada vítima recebe atendimento individualizado, com encaminhamentos para moradia, geração de renda, educação, benefícios sociais e reconstrução de vínculos familiares.

Trauma e reconstrução de vida

Segundo a psicóloga Carina Mello, a superação costuma ser lenta: “Em muitos casos, a pessoa nunca teve acesso a direitos básicos antes mesmo da exploração. O resgate precisa vir acompanhado de oportunidades reais de moradia, renda e inclusão social."

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal


Ela destaca que vítimas resgatadas do trabalho doméstico enfrentam situações ainda mais delicadas, por vezes após décadas vivendo isoladas dentro de residências, sem escola, lazer e convivência social.

Os canais mais indicados para denúncias são:

🚨Disque 100, com possibilidade de anonimato;
🚨Sistema do Ministério do Trabalho;
🚨Site do Ministério Público do Trabalho;
🚨Delegacias e órgãos públicos locais.

Especialistas reforçam que informações como endereço, nome do empregador, atividade exercida e condições observadas ajudam na apuração.

O que diz a lei e os impactos para empresas

Além do desgaste público, a inclusão na Lista suja pode gerar barreiras econômicas. O advogado trabalhista Ingo Hage Calabrich aponta que a legislação brasileira considera trabalho análogo à escravidão qualquer situação que viole de forma grave a dignidade humana no ambiente laboral, mesmo sem correntes ou cárcere privado.

Ele explica que o artigo 149 do Código Penal prevê punição para quem submete trabalhadores a jornada exaustiva, condições degradantes, servidão por dívida ou restrição de liberdade. “O conceito moderno de escravidão vai além da privação física. Quando o trabalhador é exposto à miséria, sem higiene, sem descanso, sem salário justo ou impedido de sair por dívidas, há crime”, afirma.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal


O especialista ressalta que, além das sanções criminais e trabalhistas, a entrada na lista suja traz forte impacto reputacional e financeiro. Empresas podem perder contratos, enfrentar restrições de crédito e sofrer boicote comercial. “A lista suja virou referência para bancos, investidores e grandes companhias. Estar nela pode inviabilizar negócios”, destaca.

Desafio ainda é prevenir

Para Hildete Nogueira, o combate ao trabalho escravo não depende apenas de operações: “A pauta é complexa e exige união entre diversas instituições. Mas precisamos investir cada vez mais em prevenção, para que as pessoas reconheçam propostas abusivas antes de cair nelas”."

Mesmo após avanços na fiscalização, especialistas avaliam que o crime persiste sustentado por desigualdade social, informalidade e falta de informação.

Arquivo MTE

Arquivo MTE